CozinheiroDesde que programas como o MasterChef, Cozinhando Sob Pressão, Cake Boss, Tempero de Família, Bela Cozinha e tantos outros se tornaram populares, grande parte das pessoas que se apegaram a essas atrações culinárias demonstraram um inesperado interesse pela arte gastronômica. Muitos preferem apenas passar o tempo assistindo programas sobre comida dos mais diversos tipos (tem um canal na TV paga que parece passar esses programas o dia todo) e não vou negar que, de vez em quando, assisto algum com minha esposa (gosto particularmente do MasterChef Brasil) e me espanto por constatar que chegamos em um momento em que cozinheiros, desculpe, chefes de cozinha passaram a ser cultuados como celebridades. Quem diria? Queria só ver a cara de um amigo de infância que eu costumava tirar sarro na época por ele ver A Cozinha Maravilhosa da Ofélia, mas vejam só, hoje ele pode ser considerado um visionário.

Bom, voltando ao assunto, observei várias pessoas, amigos, conhecidos e anônimos, que passaram a se aventurar na cozinha. Alguns realmente parecem ter se encontrado entre os pratos, descobrindo uma atividade terapêutica e que acalma os nervos, enquanto que outros demonstram tanto talento para a gastronomia quanto a Seleção Brasileira demonstrou para o futebol no fatídico 7 a 1, ou seja, em ambos os casos, seria melhor que fossem ver o filme do Pelé.

Mas como não posso falar pelos outros, só posso falar sobre mim e minha maravilhosa experiência na cozinha que sempre se resumiu, basicamente a estourar pipoca (de micro-ondas, na panela, com óleo, sem óleo, com saco de pão), fazer Miojo macarrão instantâneo, leite com café e, minha especialidade, na qual poderia receber o status de máster (chef?), fritar ovo. Sim, aperfeiçoei gradativamente essa nobre habilidade, executando-a hoje com extrema maestria. E logo que comecei a ver alguns desses programas, depois do estranhamento inicial, que leva atores e atrizes a apresentarem algum e me faz pensar que, em um futuro não tão distante, até os jornais serão apresentados enquanto os âncoras cozinham (mal posso esperar para ver o Ricardo Boechat fazendo isso), lembrei-me de umas amigas mais velhas dizendo que eu não gostava de cozinhar porque era solteiro, mas quando estivesse casado, ia acabar descobrindo esse grande prazer. Bom, depois de 6 anos de casamento, posso afirmar categoricamente que elas não poderiam estar mais erradas e continuo acreditando que nada que leve mais do que 15 minutos para ficar pronto, merece ser feito, com exceção de churrasco, claro, que sempre tenho paciência para aguardar. Uma vez perguntei à minha esposa quando ela ia começar a cozinhar esses maravilhosos pratos de todos esses programas que assiste, e ela me respondeu que seria quando eu começasse a fazer aquelas acrobacias que acontecem naqueles filmes de ação que a obrigo a ver comigo. Nesse dia, pedimos pizza.

Assistir qualquer um desses programas é um verdadeiro aprendizado, quase como estudar uma raça alienígena para mim, na verdade. Basta dizer que, dentre todos os assuntos no mundo, culinária sempre foi um em que eu ficava sobrando. Lembro-me da época da faculdade, em que meus colegas de classe falavam sobre almoços maravilhosos, pratos criativos que haviam provado e me deixavam ainda mais constrangido com minha alimentação baseada em pão com manteiga e salgadinhos Hap Top de 30 centavos, excluso da conversa, coisa rara, já que jornalistas adoram discutir e palpitar sobre tudo. Mas culinária sempre foi um tabu para mim, que diminuiu um pouco vendo alguns programas, embora preconceitos antigos sejam difíceis de curar e ir a um restaurante chique para pagar uma fortuna em um prato que é basicamente 25 gramas de alguma mistura bizarra ainda me é uma barreira intransponível.

Mas, até aí, tudo bem, ao invés de pensar nisso, acredito ser melhor focar no sucesso de, hoje, já pelo menos saber que anis-estrelado parece uma shuriken e é algo que as pessoas usam para cozinhar e que dá para substituir algumas coisas por linhaça (e depois substituir tudo por brigadeiro, por exemplo). E vou seguindo, um prato de cada vez, da entrada à sobremesa.