Anne Rice: Um estudo em vermelho

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Passei boa parte da adolescência lendo (e relendo) livros da Anne Rice, mais especificamente, de suas Crônicas Vampirescas (ou Vampíricas, depende da tradução), iniciadas em 1976 com Entrevista com o Vampiro.  Graças a essa leitura, observei algumas coisas que julguei interessante escrever. Deixando claro que são apenas observações sem nenhuma pesquisa e teorias fundadas apenas em achismo.

Bom, quando Anne escreveu Entrevista com o Vampiro, no longínquo ano de 1976, quando ainda não havia Facebook e nem internet pra baixar o pdf do livro (nem pdf existia, acho eu), ela estava ainda se recuperando do trauma de ter perdido a filha, uma criança com a mesma idade de Cláudia, uma personagem importante do livro (vale pra quem viu o filme também). Pois bem, o personagem principal, Louis de Pointe du Lac, foi criado para representar a dor da própria escritora, afinal, é ele quem guia o leitor e, dentre todas as experiências, tem de enfrentar a perda de Cláudia. Basicamente, o livro foi escrito como um desabafo, uma forma de lidar com a dor e quem é escritor sabe o quanto isso é comum e importante. Mas isso é fato conhecido e admitido pela própria autora. Minha observação é sobre Lestat que, na minha opinião, foi criado para ser o antagonista da história, um contra ponto ao Louis, mas, acabou se tornando um personagem tão interessante e cheio de possibilidades a serem exploradas, que “conquistou” Anne Rice, tornando-se o seu personagem preferido.

Agora, por qual razão eu acho isso, além de Lestat ter estrelado vários outros livros, enquanto Louis se tornou um mero coadjuvante? É simples e tem um nome: Retcon (do inglês retroactive continuity) ou Continuidade retroativa, que é uma alteração de fatos previamente estabelecidos na continuidade de uma obra ficcional. Isso acontece no segundo livro, o Vampiro Lestat, logo no início, com Lestat recriminando Louis por coisas descritas em Entrevista com o Vampiro mas que não aconteceram daquela forma, como o último encontro entre os dois vampiros em que Louis fala de um Lestat sozinho e incapaz de viver com as modernidades; e durante o decorrer da história, como por exemplo quando Lestat explica que suas vítimas sempre são bandidos e malfeitores, inclusive as vítimas inocentes que Louis cita anteriormente são retratadas de outra forma.

Acredito que a criação desse retcon é um indício de que Lestat se tornou mais interessante do que Louis para a autora e, por isso, foi preciso fazer alguns reparos na história geral.

Mais um ponto que acho interessante destacar é um acontecimento no quarto livro, A História do Ladrão de Corpos (excelente, diga-se de passagem), também estrelado por Lestat. Na trama, o príncipe-moleque (como a própria Rice o descreve), troca de corpo com um homem, para voltar a sentir como é ser humano outra vez. Durante sua aventura, doente e debilitado, ele é socorrido por Gretchen, uma freira e enfermeira voluntária numa missão. Os dois acabam se envolvendo e (mais uma vez, baseado apenas em achismo, já que não li nenhuma das biografias ou livros sobre Anne Rice) acredito que a enfermeira seja outra representação da própria da escritora, que teve uma infância dedicada à religião, quase tendo se tornado uma freira. E muito da personagem e das conversas com Lestat retratam ideias da própria criadora, então não é difícil acreditar que esse trecho do livro tenha sido uma singela conversa entre a autora e seu mais querido personagem, o que é algo comum para qualquer escritor, colocar características próprias em vários personagens, o que leva ao ponto seguinte.

Anne Rice é uma amante da arte, coisa que pode ser acompanhada em cada um de seus livros, como em Vittorio, o Vampiro (meu preferido), que tem participação intensa de artistas renascentistas, por exemplo. E é interessante notar na leitura de vários livros do mesmo autor, como essas características próprias de cada um, que vão além do estilo literário, são desenvolvidas.

Anne Rice, com suas Crônicas Vampirescas, reimaginou o mito do vampire de uma forma inédita, cheia de detalhes e características interessantes, de forma muito mais rica do que os vampiros retratados em Crepúsculo, por exemplo. Sua escrita remete aos textos mais clássicos, muitas vezes um pouco mais difíceis de ler e acompanhar, ainda mais na atualidade, onde a urgência, o internetês e os textos condensados são a referência. Mas para quem tiver paciência para acompanhar, suas obras são espetaculares, vibrantes e uma literatura rica, que dão verdadeiras aulas sobre descrição de locais, situações e personagens. Uma escritora histórica, sem dúvida, e que vale a pena conhecer.

Enfim, citando o mais famoso vampiro de Anne Rice ”Eu queria tanto dizer alguma coisa! E queria que fosse profundamente poética, profundamente significante, que resgatasse minha cupidez e minha maldade, e o meu pequeno coração sedento.  Sim, dizer alguma coisa para lançar as trevas sobre tudo isto e mostrar o que é realmente! Deus amado, eu queria dizer alguma coisa que mostrasse o horror mais profundo. Mas não consegui. Na verdade, o que mais há para dizer? A história está contada”.

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