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Crônica de Quinta (só que na terça) – Quem é que Nunca…?

Quem é que nunca acordou assustado de um pesadelo e ficou feliz por ver que não era real? Ou abriu os olhos feliz depois de um sonho, quis fechá-los novamente e voltar para aquela realidade, desejando que fosse mesmo real?

Quem é que nunca promoveu um show épico e foi pop star debaixo do chuveiro, não se dando conta do quão ridículo podem achar algumas pessoas – as enfadonhas – cantar pelado diante uma plateia imaginária?

Quem é que nunca perdeu a hora de levantar porque ficou mais cinco minutinhos na cama?

Quem é que nunca ensaiou uma conversa com alguém e imaginou todas as respostas, se preparou para todas as possíveis variáveis do diálogo, pra se perder num olhar lindo e esquecer até como se pronuncia “Oi”?

Quem é que nunca quis amar para sempre e, quando as coisas deram errado, sentir as borboletas no estômago por saber que pode sim, amar de novo?

Quem é que nunca quis poder viver para sempre, viajar no tempo, voar ao infinito e além e depois de volta, mas trocaria tudo isso por alguns momentos por aquela pessoa tão especial?

Quem é que nunca julgou alguém antes de conhecer, enxergou um grande inimigo ou rival pra, só depois, abaixar a guarda, recolher as defesas e encontrar um grande e verdadeiro amigo?

Quem é que nunca odiou os pais por ser proibido de fazer aquela viagem, se encontrar com aquela pessoa ou por ter aprontado aquela travessura, mas entendeu, anos depois, que teria feito o mesmo?

Quem é que nunca quis começar de novo, reiniciar o jogo depois do Game Over e escolher caminhos diferentes, tomando decisões melhores?

Quem é que nunca quis brincar até mais tarde, quis que o tempo parasse, quis que a noite não terminasse ou que o beijo fosse eterno? Quem é que nunca quis um momento para sempre? Quem nunca quis ficar congelado, exatamente ali, naquela fração de segundo e guardar o momento?

Quem é que nunca riu de verdade, chorou por dor, sofreu por amor, sentiu falta, saudade, de amigos, família ou amores? Quem nunca se encantou pela beleza das flores?

Você, eu, todo mundo.

Quem é que nunca aprendeu? Que nunca cresceu, nunca mudou, nunca deixou pra trás, nunca foi capaz de esquecer, nunca conseguiu perdoar?

Quem é que nunca quis que a fantasia fosse real e que o amor fosse mesmo imortal?

E quem disse que é? E quem disse que não?

Você, eu, todo mundo.

Cada um tem a sua verdade, cada um tem os seus amores, seus motivos, suas dores, suas lutas, suas vitórias e suas derrotas.

E quem nunca quis que tudo fosse real?

Mas… quem disse que não é?

Politicamente correto à venda

 

Não sou um cara politicamente correto. Faço piadas maldosas, como carne vermelha, me entrego, com certa ressalva, à procrastinação, nem sempre olho pros dois lados antes de atravessar uma rua, deixo verdura sobrar no prato e não trato os animais como se fossem deuses entre homens. Mas não sou tão mal assim, não jogo lixo no chão, não faço ‘gato’ na TV a cabo e dou a vez pros mais velhos. E admiro quem tenta fazer do mundo um lugar melhor, de verdade. Mas tem uma coisa me incomodando com tudo isso, já há um bom tempo. Mas vamos historiar, pra facilitar a compreensão:

Há pouco mais de um ano, se não estou enganado no meu calendário, a mídia convenceu todo mundo de que a sacola plástica que usávamos nos mercados era um mal para o mundo e deveria ser abolida, pois demora muito tempo para se desfazer na natureza, polui e mata os peixes, os bichos, os insetos, as plantas e os pokemóns. Acredito eu que seja verdade, taí a mídia, os especialistas, os jornais e o Facebook, que não me deixam mentir. Então, foi uma campanha admirável e algumas cidades (a minha, inclusive) proibiram as famigeradas sacolas nos mercados, colocando-os sob a obrigatoriedade de oferecer uma alternativa para carregarmos nossas compras, como caixas de papelão, por exemplo. Caixas, ressalto, que são consideravelmente raras de se encontrar, muitas vezes quase tive de disputar a tapa, e aquela velhinha que ficou com a última era bem durona. A outra opção, que nunca falta, pelo contrário, abunda, são as sacolas de plástico biodegradável. “Puxa, então quer dizer que os mercados estão mesmo preocupados com o ambiente!”, você afirmaria, feliz por uma parte do seu rico dinheirinho gasto nas compras ser empregado numa atitude louvável. Mas pera lá… as novas sacolas não são gratuitas, como as antigas, elas estão à venda! Acho que, tirando esse pobre escriba acusado de muquirana, ninguém chiou com isso, mas não consigo deixar de ver a lógica distorcida por trás dessa história. Vamos analisar: o mercado nos dava sacolas plásticas para carregarmos as compras. A prefeitura proibiu o uso, então o mercado passou a vender sacolas biodegradáveis pelo “preço de custo” (até parece) para o consumidor. Não sou dos melhores em matemática (eu fiz jornalismo, afinal), mas na minha conta, chego ao seguinte resultado: o mercado gastava X com sacolas durante o mês. Hoje, ele ganha Y com sacolas durante o mês. Simples, não?

Daí vão dizer que sou egoísta, afinal, é um preço pequeno (cerca de 19 centavos) a se pagar pelo bem do ambiente, pela preservação do nosso planeta e da natureza. Concordo. É um preço pequeno mesmo. Mas porque eu que tenho de pagar e não os mercados? Sei não. Meu sentido de aranha paranoico está tilintando e me dizendo que, no fundo, a preocupação dos mercados era extinguir o gasto que tinham com sacolas plásticas. Se puderem usar uma desculpa, como o politicamente correto e a preservação, tanto melhor. E não é que deu certo?

De qualquer forma, eu levo minha própria sacola de casa (essa sim!) e, no caso de esquecê-la, carrego na caixa de papelão (quando há alguma milagrosamente disponível), carrego nos braços, nos bolsos, peço ajuda, faço duas viagens. Mas não compro a bendita da sacola! É questão de honra!

Crônica de Quinta – Adeus Ano Velho de Novo

Todo fim de ano é a mesma coisa.

Especial do Roberto Carlos e show da virada na Globo, episódio de natal e ano novo do Chaves no SBT e retrospectivas em quase todos os canais. Fora da TV, aqui no nosso mundinho real, as coisas também são sempre iguais. Diferentes do ano todo, mas sempre iguais aos anos anteriores. Por exemplo, na empresa sempre rola amigo secreto, troca de presentes e aquelas confraternizações barulhentas. Difícil é quando você tira aquela pessoa que nunca trocou uma palavra e tem de acertar no presente. Pra acabar com esse perrengue, inventaram a tal lista de desejos, que você preenche dando algumas opções pro seu amigo secreto acertar na escolha. O que só torna mais chato ainda quando você ganha algo totalmente diferente do esperado. Uma vez fiz uma lista com pelo menos quatro livros e minha (in)amiga secreta me deu uma camiseta, de uma loja que ela fazia promoção. Presentão, hein? Ainda mais depois que rodei a cidade inteira pra encontrar os vales CDs pro meu amigo.

Outra coisa que também acho irritante é o hábito de ficar mandando mensagens pela rede de e-mails da empresa. Além de encher a caixa com um bocado de porcaria, que não dá para barrar como spam, ainda vem de pessoas que eu nunca vi na vida! “Fulano te deseja felicidades”. Quem é o tal Fulano? Por que tá me desejando coisas se nem me conhece? Vai que eu sou um sociopata? Ainda assim ele me desejaria felicidades? Sei não.

E a festa da virada, onde geralmente rola churrasco ou reunião de família (e, mesmo pra quem gosta, sempre tem uns primos chatos), com aquele monte de rojões estourando à meia-noite e espantando a cachorrada pela vizinhança? Daí, nunca falta um xarope pra puxar o “Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Cara, quem inventou essa música? De certo que o autor já morreu, mas por prestar esse desserviço à humanidade deveria ter sido chicoteado sem piedade! Poucas músicas (incluindo aqui os funks e até uns pagodões) conseguem ser tão deprimentes e insuportáveis quanto essa melodia infernal.

Também não podem faltar as (mesmas) promessas que todo mundo sabe que ninguém vai cumprir. “Vou emagrecer. Praticar mais esportes. Trabalhar menos (ou mais, no caso dos preguiçosos). Ficar mais com a família. Ser mais paciente. Ser mais generoso. Ser menos muquirana. Menos implicante.”. Ah, vai. Claro que vai. Alguns até tentam, é verdade. Mas não resistem e acabam voltando a fazer tudo como antes. Promessa de ano novo é igual campanha política, todo mundo sabe que não dá pra cumprir nem se o sujeito quisesse. Eu mesmo, prometo que vou tentar ser menos anti-social, trabalhar menos (ou mais, dependendo da ocasião) e ser mais paciente com todas as pessoas. Não vou emagrecer (não preciso, morram de inveja!), mas prometo que vou praticar mais atividades físicas. E vou fazer menos cara feia na hora de gastar dinheiro, mesmo que seja em coisas supérfluas e que custem bem mais do que realmente valem. Vou tentar ser menos ranzinza e não deixar meu humor ácido aflorar tanto e tantas vezes. E prometo, principalmente, que vou tentar cumprir tudo que prometi. Palavra de escoteiro. E se não cumprir, prometo que vou prometer tudo de novo no ano que vem.

Crônica de Quinta – Papai Noel

 

Eu não acredito em Papai Noel.

Isso, claro, vindo de um homem adulto, parece óbvio, mas a questão é que eu nunca acreditei. E olha que fui uma criança imaginativa, do tipo que acreditava que colocar uma camiseta regata do meu pai nas costas me fazia parecer o Superman, ou que o meu sangue correndo nas veias era azul e só ficava vermelho em contato com o ar.

Mas no velhinho barbudo entrando pela chaminé, eu nunca acreditei. Talvez porque eu nunca tive chaminé em casa. Ou porque meu pai também nunca se vestiu de vermelho com barba falsa pra me dar presente. Na verdade, o Natal em casa não costumava ser uma data muito comemorada. Ganhava o meu presentinho (algumas vezes com antecedência por ficar insistindo) e via TV ou jogava videogame, não tínhamos ceia, reunião em família ou situações semelhantes. Mas não precisa ter dó de mim, isso nunca foi um problema, meus programas natalinos (como ver Chaves no SBT) ou ficar assistindo televisão até mais tarde sempre me deixavam satisfeito. Gostava também de ver a cidade enfeitada (quem não gosta?) e ver o Papai Noel inflável nas vitrines de algumas lojas.

Na adolescência, manter-me à margem da sociedade foi ficando mais difícil, chegamos a ensaiar enfeites lá em casa; eu tentei reviver uma velha árvore de natal que pertenceu à minha mãe quando solteira e foi um desastre. Explico: fiquei o dia todo preparando a árvore escondido e, durante a noite, depois que todos deitaram, fui colocá-la na cozinha para que no dia seguinte meus pais ficassem encantados com o enfeite. Mas o suporte da árvore (que era de metal e pesava uma tonelada) caiu no caminho e acordou todo mundo. Minha mãe se levantou assustada pra ver o que tinha acontecido e encontrou-me na cozinha, com a árvore na mão e sorriso de culpado na cara. Bom, pelo menos foi uma surpresa.

Alguns anos depois, ainda na adolescência, comecei a compartilhar o Natal alheio e virei figurinha garantida nas ceias da família Silva. E que ceias, diga-se de passagem! Comida variada e bem servida, bebida à vontade e, claro, as ótimas companhias de Claudinei, Carlos, Seu Darci e Dona Carmelita, com a presença de alguns outros amigos em anos variados, como o Elton, Fabiano, Rodrigo, entre outros. E embora eu nunca tenha deixado de ficar constrangido na hora do “Feliz Natal”, foram bons tempos. Até cartões natalinos eu costumava mandar pra algumas pessoas. Mas o Claudinei mudou-se há alguns anos para outro estado, então isso tudo agora faz parte apenas do meu Fantasma do Natal Passado.

Hoje em dia, o programa é uma ceia agradável com a minha sogra e cunhados; com meus pais, minha irmã e sobrinhas participando ocasionalmente. Bons tempos também, são companhias sempre agradáveis. Mas daí eu volto ao começo. Nunca acreditei em Papai Noel. Parece tão estranho dizer isso, sinto-me ter sido um descrente entre as crianças. Minha esposa conta que só parou de acreditar quando viu o Papai Noel usando o relógio e os sapatos do pai dela. Bom, pela menos ela entendeu que eram a mesma pessoa ao invés de achar que o sujeito batuta tivesse roubado o seu pai… minha mente paranóica seria bem capaz de bolar uma loucura dessas. Mas isso, claro, só se eu acreditasse em Papai Noel.

Talvez, agora, para concluir a crônica, eu devesse ensaiar uma canção natalina, ou promover uma reviravolta no estilo dos filmes dessa época que sugerisse que eu não só acreditasse como ainda acredito no bom velhinho, mas seria uma baita de uma sacanagem, já que eu nunca acreditei mesmo. Pode perguntar pra ele, se duvida.