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Crônica de Quinta: Beleza Se Põe À Mesa

silviaeu

Dizem que beleza não se põe à mesa. Eu discordo. Acho que a beleza influencia em nossas decisões, nos guia e nos leva a fazer coisas certas e erradas, principalmente nos relacionamentos. Enfim, acho que a beleza é o carro chefe para amar alguém. A questão, a grande questão, não é essa. E sim, o que é a beleza.

Algumas (muitas) pessoas podem dizer que a beleza é aquilo que os olhos veem. Que é a simetria nos traços, a cor dos olhos ou da pele, o tamanho dos seios ou a maciez dos cabelos. É, mas estão erradas. Isso não é beleza. Pelo menos, não a beleza que leva ao amor, ela é muito mais que isso.

A verdadeira beleza está no olhar daquela pessoa, que tem olhos que passam despercebidos por todos, mas que brilham ao encontrar os seus. Está naquele sorriso que não é de comercial de creme dental, talvez nem tenha o hálito mais fresco e os dentes mais brancos, mas ilumina todo o ambiente quando você o vê. Está naquele andar desengonçado, mas que você acha gracioso. Está nos gestos desastrados, no mau-humor matinal e até na falta de paciência. Está na silhueta, que pode não ser daquelas que estampam revistas, com quilinhos a mais, mas que, mesmo assim, definem o seu padrão.

Essa beleza, a verdadeira, também enxergamos sem usar os olhos. Quando ouvimos aquela voz que acelera o coração ou aquela risada que nos parece música. Quando um hábito simples se torna uma referência, piadas ruins nos levam aos risos e mesmo os piores filmes ou programas de TV, ficam divertidos. Podemos sentir essa beleza quando nos falta algo ou alguém. Quando a espera é muito longa e a ansiedade faz o tempo se arrastar. Quando as piores ideias e os planos mais mirabolantes parecem fazer sentido. Quando uma ruga ou cabelo branco deixa de ser envelhecimento para ser charmoso. E quando todas as outras pessoas passam a ser consideradas bonitas dependendo do quanto se parecem com aquele alguém.

Encontrar essa beleza nem sempre é fácil. Na verdade, nunca é. Nos apegamos demais em questões menos importantes, como a aparência física, por exemplo. Ou o que os outros vão pensar. Ou nos perdemos num monte de outras besteiras, afinal, como humanos, somos todos um bando de bobocas sempre à procura de algo. Buscas que parecem nunca ter fim, por dinheiro, emprego, o corpo perfeito, o carro mais veloz, a banda larga mais rápida, o chocolate mais doce, a cerveja que mais desce redondo, o banco feito para você, a onda perfeita, a batida perfeita, amores-perfeitos… enfim, a busca nunca acaba.

Mas vale a pena procurar, “no armário, no abecedário, embaixo do carro, no negro, no branco, nos livros de história, nas revistas e nas rádios, procurar pelas ruas, onde mora sua mãe, nos quadros de Botero, no seu porta-moeda, em duas mil religiões e até em suas canções”, como diria Shakira, procurar em todos os lugares. Porque a beleza está  mesmo nos olhos de quem vê.

Crônica de Quinta (na terça) – Aprendi a Esperar

Não me lembro qual foi a primeira coisa que aprendi, nem qual a primeira palavra que disse. Pode ter sido “mamãe”, como sempre acontece nos desenhos animados e nos filmes, ou pode ter sido “tô com fome”, que foi, sem sombra de dúvida, a frase que minha mãe mais ouviu de mim desde que aprendi a falar.

E também acho engraçado quando me perguntam qual a última coisa que aprendi e respondo, sempre bem-humorado e parafraseando Chaves: “Eu ainda não aprendi pela última vez”. Embora no seriado em exibição há quase três décadas na TV a piada seja com tomar banho, acho que a minha versão é uma grande verdade que aprendi.SaltoLivro

Meu pai, por exemplo, que aprendeu muito desde que o conheço (tempo que equivale a toda a minha vida), vive repetindo que não importa o quanto você sabe, sempre vai ter alguém que sabe mais do que você. E vejo que ele tem razão, que desde que o médico me deu aquela palmada na sala de parto para que eu chorasse (deve ter sido mesmo minha primeira lição, essa coisa de chorar) que eu tenho aprendido, num processo constante, infindável e delicioso.

Aprendi a falar e a escutar, embora nem sempre esteja realmente ouvindo (principalmente quando estou digitando no computador, mesmo que esteja olhando para a pessoa, ao invés do teclado). Aprendi a ter amigos, embora não tenho aprendido a perdê-los e nem a ter inimigos. Aprendi a amar, mas só depois de aprender a superar quando as coisas dão errado e é preciso recomeçar tudo. Da mesma maneira que aprendi a chorar sozinho e não derramar lágrimas em público, para compactuar com o senso comum de que homem não chora. Aliás, isso me fez aprender que às vezes se desacredita na verdade e confia na mentira e que nem todas têm pernas curtas. Aprendi a digitar, a usar o computador (o que seria de mim sem ele?), nadar, andar de bicicleta e dirigir; a cantar desafinado, ler em voz alta e um pouco de inglês, espanhol e até japonês; um pouco de desenho, violão, karatê, e outros cursos que comecei pra nunca mais terminar. Aprendi que o escuro é só carente de luz, embora eu ainda tenha pesadelos com os zumbis de “A volta dos mortos-vivos” em algumas noites.

Com tanta coisa que já aprendi, é difícil fazer uma escala de importância, mas posso afirmar, com absoluta certeza, que aprender a ler e a escrever figuram no “Top Five”. Hoje sou capaz de realizar essas duas tarefas tão corriqueiras com razoável destreza, consigo ler e entender um texto só de passar os olhos por ele (habilidade que desenvolvi lendo trechos de gibis em bancas de jornal antes que o dono proibisse de folheá-las); e o tempo e o treino fizeram da palavra escrita uma amiga íntima e uma forma de me expressar com extrema paixão. Mas isso não surgiu do nada, não foi um dom divino que apareceu como o acender de uma luz.

Recordo-me dos primeiros passos para entender aquele monte de símbolos alienígenas e indecifráveis e o quanto eu odiava ter de pedir para que alguém lesse algo para mim. Lembro-me da minha companheira, a Caminho Suave, minha primeira cartilha, aquela espertinha, que me marcou com a “barriga do bebê” e do pobre cão que come na cuia. Vejo hoje minha jovem sobrinha passando pelo mesmo processo, e como é maravilhoso ficar lendo tudo o que se vê, muitas vezes devagar e em voz alta, e a satisfação de entender o que aquele punhado de letras significa.

E não consigo me imaginar num mundo onde esse prazer não seja possível. Onde a satisfação de ler um texto e compreender o que o autor quis nos dizer possa ser substituída. Acho até que, se as pessoas lessem mais, refletiriam melhor e teriam menos tempo para mal-dizer o próximo ou para planejar guerras, para atentar contra outros. E talvez, assim, o mundo fosse mais parecido com uma biblioteca: mais silencioso, mais agradável e com muitas prateleiras de sabedoria para compartilharmos.

Crônica de Quinta: Dominique e Eu

Confesso que nunca entendi os “cachorrólogos”, aquelas pessoas tão apaixonadas por cães que agem como se eles fossem deuses ou criaturas superiores de um plano divino. Também nunca li “Marley e Eu” e, embora escritor, fico imaginando de onde o autor tirou tanta coisa para preencher um livro inteiro. Bom, basta ler um livro de teoria (de qualquer coisa) pra saber que não deve ter sido tão difícil assim.

No entanto, apesar de tudo isso, sempre tive animais de estimação, na maioria cães. Também já tive coelhos, uma pata e até um tatu e já tentei até cultivar vaga-lumes num vidro de maionese e nem preciso dizer que não deu certo.

Mas dentre todos esses bichos, houve um que me fez entender um pouco a “cachorromania” que acomete algumas pessoas.

Lembro que era uma tarde de algum dos meses finais do ano de 94 e eu não havia ido à escola por um motivo muito importante: passar a tarde jogando videogame na casa do meu vizinho. Então minha mãe e irmã (ainda solteira, na época) encontraram uma caixa abandonada com dois filhotinhos de cachorros, duas cadelas na verdade, uma branca com manchas pretas e outra preta com manchas brancas. Como estávamos sem cachorro já que o “Juli”, o primeiro cão de que me lembro, havia sido atropelado por estar cego havia algum tempo, as duas cadelinhas sem casa foram logo adotadas.

Não dei muita atenção, afinal, era tarde de videogame, e nem tão pouco participei do batismo das duas. A branquinha acabou sendo chamada de Babalu (acho que por causa da novela Quatro por Quatro) e a pretinha de Dominique (não faço ideia do por quê).

Bem, aos poucos, cada uma foi desenvolvendo características próprias e que as diferenciavam. Por exemplo, sempre que elas invadiam meu quarto numa manhã preguiçosa, Dominique aproveitava para adentrar sem reserva feito um foguete, pular sobre a cama, correr de um lado para o outro e sair em disparada, tão fogueteira quanto entrara. Já Babalu vinha toda dengosa, com olhos solícitos, tentando conseguir um afago ou mesmo um espaço na cama ou no tapete para ganhar algum carinho.

Não me recordo por quanto tempo essa dupla dinâmica frequentou minha vida e minha casa, mas um dia Babalu (a branquinha) acabou adoecendo. Não houve tempo de pensar em veterinário ou mesmo tentar adivinhar qual era a doença, pois esta se mostrou fatal na mesma manhã. Dessa forma, Dominique tornou-se o único e exclusivo cachorro a ganhar toda nossa atenção e mimo.

Pouco tempo depois, minha mãe ganhou outra cadelinha, a Jenyfer, que era cria da Ianca (outro nome baseado em novela), cadela que pertence à minha irmã.

Jenyfer era uma poodle graciosa e alegre, que rapidamente ganhou as maiores atenções da família, com exceção de mim, que já havia me acostumado com a Dominique e estava disposto a não deixar que “a nova integrante da família” a fizesse ser relegada a segundo plano.

Lembro-me que nesse período, que talvez seja no ano de 97 ou perto disso, quem ficou doente foi a Dominique. Ou comeu veneno para ratos que algum vizinho desalmado colocava sem aviso ou permissão em nosso quintal, não sei, mas os sintomas eram parecidos com os que levaram Babalu à morte. No entanto, nossa pretinha corajosa mostrou-se
mais resistente, conseguimos até levá-la ao veterinário em tempo. E essa visita ao veterinário não foi nada fácil. Meu pai estava trabalhando e tive de carregá-la a pé por todo o caminho e é impressionante como um cachorro de alguns quilos adquire “tonelagem” depois de alguns quarteirões.

Mas o importante é que em alguns dias ela voltou a caminhar com as próprias pernas, comer como se a comida estivesse para acabar e fingirse de coitada por uns afagos. Sim, foi bem nessa época que seu comportamento começou a mudar um pouco. Dominique ficou mais parecida com Babalu, manhosa e de olhar solícito, enquanto que Jenyfer assumiu a função espoleta. Função que lhe caía bem, Jenyfer era uma poodle com ar atrapalhado e “cara” de desentendida.

Infelizmente, não demorou muito tempo para que Jenyfer caísse doente, aparentemente do mesmo mal que já havia afligido as outras duas cadelas e levado uma delas à morte. Jenyfer seguiu o mesmo caminho de Babalu e, mais uma vez, Dominique ficou sozinha.

Nessa época, no ano de 98 e 99, meus pais moraram em Ribeirão Preto. Morei com eles em 99, mas, antes disso, Dominique tornou-se a única companhia da minha mãe enquanto meu pai estava trabalhando. E isso ajudou muito minha mãe a não ter nenhum problema com solidão por morar distante de toda a família.

Quando fui morar com eles, em 99, Dominique acabou adoecendo mais uma vez, sempre da mesma doença que já nos assolara antes. Levamos-na ao veterinário, e o diagnóstico era de parvo virose, com chance de 1 em 10 para sobreviver. Foram vários dias “de cama”, sem conseguir comer e sem muitas expectativas. No entanto, também graças aos cuidados da minha mãe, depois de quase uma semana de convalescença, Dominique voltava à ativa. Lembro-me de uma situação
bem engraçada que aconteceu nessa melhora. Como raramente chovia no lugar em que morávamos, ela sempre latia aos céus quando as gotas começavam a cair. Era uma tarde qualquer, estávamos na cozinha e Dominique deitada em sua “cama” confortável, ainda com poucos movimentos por ainda estar se recuperando. Quando os primeiros pingos começaram a cair, ela levantou-se valente para latir para as nuvens. Mas assim que começou a correr, escorregou com as patas traseiras ao tentar fazer a curva da porta da cozinha. Eu e minha mãe rimos e, como se estivesse envergonhada, desistiu de seu embate com a chuva, cessou de latir e voltou cabisbaixa para seu leito.

A essa altura, Dominique já era parte da família e sempre que viajávamos para visitar nossa cidade ela nos acompanhava, afinal, não podíamos abandoná-la sozinha.

Algum tempo depois, minha mãe arrumou outra cadela, chamada também de Jenyfer (II). Bastante semelhante à primeira Jenyfer, embora com pêlos marrons, a nova Jenyfer logo tornou-se o novo xodó, sempre procurando afago e atenção. Foi mais ou menos nesse período que eu notei a diferença de Dominique para os outros cães. Ela jamais lambia
alguém. Mesmo que você lhe desse comida na boca, Dominique jamais lambia uma pessoa. Era como se tivesse nojo de nossa pele ou fosse “elegante” demais para se entregar a tais atitudes. E seu orgulho ficava ainda mais evidente quando ficava a pedir por comida. Enquanto qualquer cachorro sempre fica com olhar de “pidão”, atento o tempo todo no objeto de seu desejo, Dominique parecia ignorar a comida totalmente, olhava para os lados, fingia que não estava nem aí, tipo: “eu nem queria mesmo”. Eu achava hilário.

Nos últimos tempos, no entanto, Dominique estava debilitada. Sua audição era mínima (e confesso que eu lhe pregava vários sustos por conta disso) e, embora ainda comesse feito desesperada, estava um pouco abaixo do peso, já que seus dentes já não eram tão fortes para triturar a ração. Mas ainda era a mesma, brincava quando lhe convinha, dormia quando queria e mantinha sua postura orgulhosa.

Há alguns dias, ela esteve doente. No dia seguinte, no entanto, parecia ter melhorado. Mas o outro dia foi fatal para a pobre e querida Dominique. Foi na manhã de quarta-feira. Por volta das 6h da manhã, eu a ouvi latindo, próxima a minha janela. Levantei rápido, assustado, achei que tivesse se ferido. Antes disso, no entanto, eu havia acordado de
madrugada com um pesadelo que me tirara o sono e não me deixara dormir por mais de uma hora. Não me lembro do seu conteúdo, mas sei que me deixou assustado. Como se a morte estivesse a rondar as fronteiras da minha casa. Voltando à Dominique, quando cheguei ao quintal junto com minha mãe, ela estava deitada, suja de sangue na boca. Parecia não enxergar, embora os olhos estivessem abertos e ela se esforçasse para levantar. Fiquei um pouco com ela, tentando acalmála. Depois voltei para a cama por alguns minutos. E sabia que, quando me levantasse novamente, ela estaria morta. Era o fim, depois de 14 anos de companhia, da saga de Dominique em minha vida. Uma saga completa de uma cadela forte e incomparável, pelo menos para mim.

Houve uma vez em que ela saiu pela rua e desapareceu misteriosamente. Sumiu como se a terra a houvesse tragado. Fizemos cartazes, colamos em alguns lugares no bairro e nada. Sete dias depois, nossa atenção foi chamada por um latido familiar, vindo do portão. Era Dominique! Suja e mais magra, latindo feliz chamando-nos! Nunca saberemos onde esteve ou se alguém a levou. Tudo que posso imaginar é que, de alguma forma, ela conseguiu fugir e encontrar o caminho de volta para casa. Foi uma das coisas mais impressionantes que a vi fazer. Talvez seja por isso, pela sua “imitação de cobrinha”, se arrastando de costas pelo chão para brincar, por seu “nojo de pessoas” ou seu orgulho, por sua inteligência de dormir no chão nas noites em que eu permitia que ficasse em meu quarto, por conta de um temporal e, quando acordava, estava ela lá, estrategicamente colocada sobre a cama, subindo apenas depois que eu adormecesse; por seu abanar de rabo honesto, por sua atenção quase que hipnótica quando o assunto era comida ou por seus instintos de caçadora que levaram vários pássaros a morrer em suas patas e dentes, talvez por tudo isso, eu saiba que nunca haverá um cachorro ou qualquer outro animal de estimação capaz de ocupar o vazio deixado por Dominique em nossas vidas e em nossos corações. Principalmente no meu.

Depois de todos esses 14 anos, me recuso a acreditar que não exista um lugar para onde a alma dos animais vá depois que eles morrem. Não parece correto, justo ou certo que eles não mereçam o paraíso ou mesmo que não tenham alma. E se todos os cães merecem o céu, tenho certeza que Dominique tem um lugar de destaque garantido. Por tudo que fez por nós e por tudo que foi para nós. Descanse em paz, Dominique, mas saiba que estará sempre em nossos corações.

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