Rodney Buchemi é um desenhista de sucesso, já tendo trabalhado para as principais editoras gringas, como Marvel e DC Comics. Justiça seja feita, seus desenhos são excelentes, com bons detalhes, e sua arte sequencial é competente.

Minha curiosidade maior em conhecer mais do seu trabalho se deu por sua participação no podcast dos Melhores do Mundo, sempre divertidos de se ouvir, então, quando vi que o livro 1 e 2 de A Ordem de Licaão estariam disponíveis para venda na CCXP, pedi para um amigo adquiri-los para mim. No entanto, a leitura, embora apreciada, me casou sentimentos conflitantes, mas vamos lá.

A ideia de ambientar a história em uma cidade brasileira merece elogios. Até escrevi no ano passado sobre crescermos sob a influência estrangeira nas histórias, principalmente americana, e o quão importante é lutar contra esse complexo de vira-latas e trazer histórias de qualidade para a nossa realidade. Isso, aliás, foi uma das coisas que me deixou ansioso para ler a HQ. A arte também, como não poderia deixar de ser, é maravilhosa, e o fato do material ser em preto e branco não traz nenhum problema, pelo contrário, deixo os detalhes ainda mais elegantes e bonitos. Destaque para a capa da segunda edição, que é primorosa, do tipo que dá vontade de enquadrar.

Os personagens se apresentam interessantes, embora as poucas páginas de história impeçam que possamos conhecê-los melhor. O que poderia soar como clichê (delegado experiente, mercenário maneiro), felizmente, traz um efeito de similaridade positiva. Ainda falando sobre a trama, embora ela seja boa o suficiente para despertar a curiosidade de continuar acompanhando, acredito que faltou um polimento maior para o resultado final. Por exemplo, em determinado momento, Hellena Licaonte pensa consigo mesma que não sabe o que o outro personagem está fazendo naquela cidade, suas motivações (na edição 1). No segundo volume, no entanto, ela explica para Tatsumo e o parceiro a razão de tudo, o que deixa sem sentido sua auto indagação anterior.

Também me incomodou o encontro com o Alpha, por dois motivos. Primeiro que Hellena havia conhecido há pouco Tatsumo e não havia motivos para garantir que ele e o parceiro (que faltou ser melhor apresentado) são de confiança (ele é um mercenário no fim das contas). E segundo, a insistência e falta de paciência dos dois em atirarem no Alpha. Até o momento, os comentários dele haviam sido em grego (que eles não entendem) e não havia ameaça, sendo que atacá-lo soou apenas como uma ação massaveio e para mostrar o quanto badass eles são.

Por fim, ao investir em uma trama com lobisomens, o autor fica no limiar do risco de cair em clichês propagados há muito tempo e a dificuldade de se apresentar uma “novidade” também poderiam pesar no resultado. Buchemi consegue lidar, a princípio, bem com isso, principalmente, como já disse, ao ambientar a história em Minas Gerais, encontrando até uma justificativa válida para tanto. Desenvolver uma ordem (que dá nome à obra) com lobisomens também abre um campo interessante a ser explorado no futuro.

Enfim, o resultado do trabalho é bom, principalmente na segunda edição. Carece ainda de alguns (poucos) ajustes na trama e mais desenvolvimento para dizer a que veio, mas, sem dúvida, é uma obra autoral que começou bem interessante em um mercado nacional com grandes talentos, mas ainda com dificuldades para se solidificar.

 

P.S.: Alguns erros nos textos de apresentação saltaram da página. “Há tempos” sem H não, né Rodney?