Lembro que quando era adolescente e a internet não passava de redes BBS, às quais eu não tinha acesso mesmo estudando processamento de dados, meu contato com as notícias de quadrinhos era, basicamente, por meio de algumas revistas que saíam por aqui, como a Herói e, principalmente, a Wizard, que era uma versão da edição americana. Como também não me sobrava muitos trocados para quadrinhos, fliperama e o lanche (nessa ordem de importância), as compras eram esporádicas e geralmente, quando tinha algo do meu interesse, eu lia ali mesmo, na banca, folheando rapidamente. Isso resultou em duas coisas: aperfeiçoei um tipo de leitura dinâmica, que pega umas palavras da frase muito rapidamente para construir o contexto; e obrigou os donos de bancas da minha região a espalharem cartazes de “proibido folhear as revistas”. Ah, bons tempos.

Foi lendo uma Wizard que fiquei sabendo da Comic Con, um evento voltado às HQs (principalmente) e outras coisas da Cultura Nerd (filmes e séries não eram tão ligados ao universo dos quadrinhos como hoje). Desde então, passei a sonhar que um dia teria dinheiro para viajar a San Diego e visitar a Feira. Mais de 20 anos depois, só agora estou programando minha primeira viagem aos EUA e, ainda assim, não passarei por nenhuma Comic Com durante a estadia. E isso não porque cresci e parei de gostar de quadrinhos (pelo contrário, expandi muito para outros tipos de quadrinhos também), mas simplesmente porque não é mais preciso ir até San Diego ou mesmo Nova Iorque para ter essa experiência. A CCXP (Comic Con Experience) chegou para atender os nossos sonhos nerds e, o melhor de tudo, ela veio para ficar.

O youtuber jundiaiense Cauê Moura enfrenta Rodrigo Piologo, que criou, entre outras coisas, o Mundo Canibal

Quando o evento foi anunciado pela primeira vez no país, comprei os ingressos logo que pude. Alguns amigos que costumavam acompanhar quadrinhos não demonstraram o mesmo entusiasmo, então fomos apenas minha esposa (não nerd) e eu, para aquele que seria o início de um incrível evento anual de entretenimento.

Rafael Marçal e Fábio Coala no Artists’ Alley

Embora isso tenha sido já há 4 anos, as memórias são bem vívidas. Afinal, para quem cresceu nos anos 80, encontrar a Máquina de Mistério pessoalmente é algo que tem um grande significado. Durante o dia que passei na CCXP, pude comprar quadrinhos (e completar minha coleção de Graphic MSP), admirar material colecionável, roupas usadas em filmes, entre muitas outras curiosidades. Assisti um painel de disputa divertida entre Rodrigo Piologo (o Ricardo ficou preso no trânsito) e Cauê Moura, promovido por uma empresa de telefonia. No Artists’ Alley reencontrei o Fábio Coala (cujo trabalho admiro muito) e conheci o Rafael Marçal, outra figura de muito talento das webcomics. Encontrei e tirei foto com o Marcos Castro e a esposa, a Luciana. Os dois são Youtubers (além de outras coisas) e ele é autor, junto do irmão, do excelente Um Joystick e Um Violão, entre outros vídeos fantásticos. Vi o Maurício de Souza desenhando ao vivo, um privilégio inigualável para quem é fã de quadrinhos, afinal, o Maurício é um dos deuses desse universo. Também vi o Fernando Caruso na praça de alimentação, e embora já curtisse seu trabalho no Multishow e conhecesse sua fama de nerd, foi antes de saber o quão legal ele é, e não arrisquei pedir uma foto.

Maurício de Souza, o maior mestre da HQ nacional e um dos maiores do mundo, desenhando ao vivo

Enfim, foi uma experiência da qual só trouxe boas lembranças e recordações. Lembro de, na época, ouvir um dos organizadores do evento comentar que haviam fechado para três anos, que se o retorno não fosse o suficiente no primeiro ano, estariam com problemas. Felizmente, parece que, apesar da crise, dos problemas e tudo o mais, desde então a CCXP só cresceu e caminha a passos firmes para o futuro e para uma longa vida. E com certeza é isso o que todos nós, nerds ou não, queremos. Além disso, é inegável a importância de um evento dessa natureza e desse porte para o próprio mercado, estúdios, editoras e todo tipo de empresa ligada à área.

Com Marcos Castro e a Luciana D’Aulizio

Imagino que daqui a muitos anos, quando tiver um filho que vá desfrutar pela primeira vez essa experiência (sim, porque não importa se menino ou menina, meu filho vai gostar de quadrinhos, simplesmente porque acho impossível não gostar de algo tão legal quando a influência paterna é tão intensa), vou poder me gabar e dizer que eu estava lá, naquela primeira longínqua edição. E que sim, foi épico.

Sonhar em desvendar mistérios com uma galerinha que tem um cachorro que fala. Quem nunca?