Um dos momentos mais marcantes para os artistas brasileiros nessa última CCXP foi o anúncio de que Fábio Coala, do site Mentirinhas, iria produzir a Graphic MSP do Horácio. E isso não apenas porque a excelente coleção de Graphic MSP vai receber uma nova edição com o personagem mais emblemático do Mauricio de Sousa (ele mesmo já chegou a chamar de seu alter ego em um texto na extinta revista Wizard), mas também porque o Coala, além de talentoso, é uma figura muito querida entre quem acompanha seu trabalho e também entre os profissionais nacionais.

Gentilmente, ele respondeu algumas perguntas que enviamos, falando mais desse projeto, sua rotina de trabalho e influências.

Rabiscando: Você foi anunciado na CCXP desse ano para a Graphic MSP do Horário, um personagem muito importante para o Mauricio de Sousa (em um texto da extinta Wizard ele próprio se identificou como o Horácio). Como foi esse contato, desde o convite, a proposta e fechar o acordo?

Coala: O Sidney Gusman entrou em contato comigo para me fazer o convite. Na verdade era pra outro personagem, mas o Horácio é meu personagem favorito e eu não me perdoaria se não tentasse. Perguntei pro Sidney se rolava, a princípio ele disse que não. Falei da minha ligação com o personagem e que achava que tinha tudo a ver com meu estilo, ele concordou e conversou com o Mauricio. Um ano depois voltamos a tocar o projeto e escrevi o roteiro. O Mauricio leu e aprovou.






R: Qual a responsabilidade de trabalhar com um personagem que, embora não seja tão popular entre os leitores como os da Turma da Mônica, até por ter uma temática mais contemplativa, é tão emblemático para o Mauricio?
C: A responsabilidade é enorme, na proporção da alegria e honra que o projeto me trouxe. Sabia que seria um personagem difícil de trabalhar, principalmente por ser o xodó do Mauricio, mas também por não ter tantas publicações lançadas. Todo mundo conhece o Horácio, mas a maioria leu muito pouco. Tem toda pegada filosófica e é mais difícil você fazer o púbico se identificar com um animal, do que com um humano como protagonista. Ainda mais quando falamos de um animal que nunca vimos de verdade.

R: Você ficou responsável pela história e arte?

Sim. 100% Coala 😀

“100% Coala”, com ajuda do Monstro e da Ranger Rosa.

R: Mudando um pouco o foco, quem acompanha seu trabalho sabe que você passou anos como bombeiro antes de decidir se dedicar aos desenhos em tempo integral. Como foi essa decisão, você já fazia trabalhos free lance o suficiente para ter alguma noção de como era o mercado? Fale um pouco sobre esse seu começo.

C: Achei que no tempo vago eu conseguiria trabalhar com ilustração, mas era bem puxado. Me formei em Publicidade quando já era bombeiro, cheguei a fazer alguns trabalhos mas era bem difícil conciliar as duas coisas. Até que um dia tive que decidir se abandonaria o sonho de desenhar. Como eu já havia realizado o sonho de ser bombeiro (foram 5 anos de serviço) parti para um novo sonho. Mas o mercado de quadrinhos era praticamente inexistente. Trabalhei alguns anos com publicidade, até que em 2010 criei o site e comecei a focar nos quadrinhos.

R: Quem são suas principais inspirações nos quadrinhos? E quais histórias te marcaram, acompanha alguma coisa das grandes editoras?

C: Bill Watterson (criador de Calvin & Haroldo), Fernando Gonsales e Laerte. Nunca fui muito de heróis. Tenho histórias fechadas, mas nunca acompanhei. Hoje tenho muita coisa nacional, apoio muito projeto no catarse e descobri muita coisa boa aqui no Brasil.

R: O seu site, o Mentirinhas, está há anos no ar e se tornou uma das referências nacionais de webcomics. Quando o criou, você tinha já em mente o que ele poderia se tornar ou a ideia era apenas poder realizar um trabalho autoral, em que pudesse explorar sua criatividade?

C: Nem acho que o site seja referência, até porque muita gente está partindo direto para as redes sociais sem ter um site próprio. Isso dá muito mais visualização e alcance. Mas o mentirinhas sempre foi minha diversão, ainda publico diariamente (desde 2010) e, apesar de ter página no facebook, não invisto nada. Só uso pra postar link e vez ou outra uma tira antiga. Foco tudo no site, no grupo do Clubinho (apoia.se/clubinhodocoala) e, agora, no intagram (mentirinhasdocoala).

O Coala transita com enorme talento entre trabalhos capazes de arrancar lágrimas e o humor negro

R: Em média, quanto tempo você leva para fazer uma tirinha? Aliás, como é sua rotina de trabalho? Foi difícil se acostumar a “ser seu próprio chefe”, no caso, cumprir os horários de trabalho e manter a organização?

C: Uma tirinha simples leva umas duas horas pra produzir, mas a parte mais trabalhosa é a ideia, essa às vezes demora. Sou muito regrado. Começo o dia de trabalho às 7h30 e tenho horário de almoço e tudo mais, sou um chefe bem chato. Quem trabalha por conta tem que ser assim, se não as coisas não andam. Quando estou produzindo livro (quase sempre) também trabalho no fim de semana.

R: Sem dúvida que a internet e opções como o Catarse (em que seus lançamentos sempre atingem a meta rapidamente, sem dúvida um reconhecimento do seu excelente trabalho) trouxeram mais opções para os profissionais brasileiros, mas ainda é muito difícil fazer e sobreviver de HQs no Brasil. Como você avalia o mercado de quadrinhos nacionais?

C: Infelizmente nosso país não valoriza muito a leitura, menos ainda a de quadrinhos. A maioria das pessoas só conhece Turma da Mônica e Super heróis. Não faz ideia da diversidade dos quadrinhos. A produção cresceu muito nos últimos anos, principalmente graças aos independentes. Mas o público consumidor é praticamente o mesmo, infelizmente.

R: Costuma ver as adaptações de quadrinhos no cinema? Algum filme te surpreendeu positivamente? E negativamente?

C: Não leio quase nada de Marvel e DC, mas gosto dos filmes. Assisto a todos por diversão, não espero nada além disso. Mas alguns surpreendem. Gostei muito de Logan e Estrada para Perdição.

R: Por fim, sem querer roubar muito do seu tempo, fale um pouco sobre seus projetos para o próximo ano. Vem mais livros por aí, além da Graphic MSP?

C: Pois é, não pensei ainda. Queria lançar alguma coisa nova. Mas estou focado 100% no Horácio, só quando acabar vou ter uma ideia se vai dar pra fazer algo mais.

Em 2014, uma história do Coala foi lançada em forma de animação. ” Depois de participar de mais de 180 festivais de filmes e ganhar mais de 50 prêmios, é com muito orgulho que lhes apresento a primorosa obra do Jacob Frey. Lembrando que isso foi possível graças a um leitor (desconhecido) que traduziu a tirinha e colocou no 9gag e, principalmente, a Natalia Freitas (animadora brasileira que estudava na Alemanha), que fez todo o contato, participou da produção, lead texture e ainda colocou uns eater eggs no curta 😀 Hoje ela trabalha na Disney.”

The Present from Jacob Frey on Vimeo.

Não deixe de conferir nosso comentário sobre o último livro do Coala, A Casa no Fim da Rua