Muito se falou sobre a mudança de direção da DC no cinema que, a partir do sucesso de Mulher-Maravilha, teria como objetivo deixar o universo dos filmes menos sombrio e pesado, optando por uma abordagem mais leve e divertida. A princípio, isso poderia soar como um erro, já que o problema dos filmes anteriores (O Homem de Aço e Batman VS Superman) não era apenas o tom sombrio e se levar a sério demais, mas também problemas estruturais e de roteiro (a caricata versão e os planos do Lex Luthor em SvsB são o grande problema para mim), além de desrespeito na abordagem de alguns personagens (Superman havia se tornado um chato).

Liga da Justiça, felizmente, continua o excelente trabalho realizado em Mulher-Maravilha e trata de, aos poucos, recuperar o início conturbado desse Universo Compartilhado da DC nos cinemas. O filme é muito bom. Traz vários problemas pontuais, principalmente com aquele que é o grande pronto fraco da rival Marvel, um bom vilão (o Lobo da Estepe nem só tem um nome ridículo, como também é um personagem que parece não se encaixar na história, com motivações bobas e “capangas” sem personalidade), mas o mais importante é que os personagens funcionam, não apenas atuando juntos, mas também se desenvolvendo, na medida do possível, o suficiente para abrir caminho para os filmes solo dos personagens.

Esse, para mim, foi o grande mérito do filme: sair do cinema ansioso para ver um filme solo do Flash buscando resolver o assassinato de sua mãe e inocentando o pai; Arthur Curry aceitando seu destino como rei de Atlântida; as consequências do retorno de Clark (e Superman) dos mortos; a Mulher-Maravilha aceitando seu papel como inspiração; o Batman reconhecendo os limites impostos pela sua idade; e o Ciborgue saindo de amargurado para se tornar um verdadeiro herói.

Enfim, ver pela primeira vez esses personagens reunidos em live action foi uma grata surpresa, e que deixou uma boa expectativa para acompanhar mais dos heróis no cinema.

SPOILER ALERT (A partir daqui, texto contém spoilers)

Sobre a história e os personagens

O filme é hábil ao apresentar os personagens sem se perder em longas explicações ou dramas desnecessários, o que tinha uma dificuldade a mais, já que a maioria não teve filmes solos antes da reunião. Mas por exemplo, mesmo para quem não sabe muito sobre o Flash (e acho impossível que alguém ignore que o seu poder é ser muito rápido), a história desenvolve uma boa base para o herói.

Sabe-se que sua mãe foi morta quando ele tinha 9 anos, que seu pai foi condenado por isso e, desde então, Barry tem tentado provar que ele é inocente. Sem precisar ficar explicando muito, em passagens rápidas, Flash comenta sobre a Força da Aceleração (de onde tira seus poderes), sobre ter de comer muito e etc. O problema fica por conta do excesso de alívio cômico do personagem; mais da metade das piadas não funciona. Por outro lado, o cuidado com a demonstração de seus poderes (algo que velocistas ganharam no cinema desde a icônica cena de Mercúrio em X-Men – Dias de um Futuro Esquecido), funciona bem. A cena em que ele tenta surpreender o Superman e percebe que o herói consegue vê-lo correndo é uma das melhores do filme.

Vale aqui um destaque. Diferente da Marvel, o universo televisivo e o do cinema não se misturam e isso acaba sendo uma escolha acertada, já que o filme perderia muito se usasse o Flash da TV, que eu gosto bastante, mas carrega já toda uma bagagem de história e personagens. Isso permite uma liberdade criativa maior no filme e que beneficia o personagem na telona.

Outro personagem que ganhou um destaque acertado no filme foi o Superman e Liga da Justiça começa a corrigir o tratamento que o herói recebeu nos dois filmes anteriores. Finalmente é possível ver a essência do Superman. “Eu acredito na verdade e, principalmente, eu acredito na justiça”. Isso é, sem dúvida, o que o público espera do kryptoniano. Que ele seja realmente o ideal de bondade e heroísmo. Como quando abandona temporariamente a luta para salvar civis (sem precisar quebrar o pescoço de ninguém). O retorno do personagem da morte, ainda que funcione de forma razoável, poderia ter sido melhor trabalhado usando a base dos quadrinhos (corpo some misteriosamente, é levado para a Fortaleza da Solidão e fica em recuperação numa câmara). Seria legal ver o Superman reaparecendo vivo sem que os outros heróis soubessem como. Confuso, a luta que o filme apresenta entre eles seria a mesma e Lois Lane trazendo o herói de volta ao aparecer também permaneceria. De qualquer forma, a sequência foi bem feita e quando ele pergunta ao Batman “Você sangra”, teve gente aplaudindo a ironia no cinema.

Por outro lado, o corpo estar enterrado no túmulo de Clark Kent é imperdoável (ele era, antes de tudo e em segredo, o Superman) e a cena em que Flash e Ciborgue desenterram o defunto serviu apenas para uma interação entre os dois e totalmente desnecessária. Como o Flash mesmo diz, ele faria aquilo sozinho e bem mais rápido.

Mas a forma que o filme trabalha o conceito do Superman merece elogios. A esperança que ele representa. Será muito bom se a DC conseguir trabalhar isso no próximo filme do herói (para mim, uma das melhores representações do personagem é na história/animação Superman contra a Elite). Também será preciso explicar onde estava Clark Kent esse tempo todo.

O Batman de Ben Affleck é outro personagem que cresceu bastante desde o último filme. Passando de um velho cansado e pessimista, encontramos Bruce Wayne como um homem mais calmo e seguro. Menos arrogante até, resultado da culpa que sente pela morte do Superman. Vê-lo reconhecer que está velho para ser o Batman (o filme pontua várias vezes que isso já tem 20 anos) é um sinal de que a DC pode estar preparando alguma novidade para o herói em breve (deixa eu sonhar com um Batman do Futuro…).

O Aquaman é outro acerto do filme. Utilizar a premissa de que ele foi criado pelo pai humano e “abandonado” pela mãe atlante (baseado na origem retratada na animação O Trono de Atlantis) deixa uma boa base para o filme solo. Jason Momoa dar-lhe toques de Viking (ansioso pela batalha, beberrão) foi ótimo para o personagem. A cena em que ele discursa enquanto estão indo para batalha final é um dos momentos de alívio cômico que melhor funciona no filme, pela sua natureza. Momoa afirmou que o personagem seria respeitado e não mentiu.

Por fim, chegamos a Mulher-Maravilha que, mais uma vez, se mostra muito bem. Alguns críticos apontam que Gal Gadot tem suas limitações expressivas, mas é inegável que quando encarna a heroína, consegue se impor. Em nenhum momento se duvida que aquela mulher seria capaz de realizar aquelas façanhas, o que é um grande mérito da atriz. Depois de passar por uma fossa de mais de 60 anos (desde a morte de Trevor), parece que a heroína finalmente entendeu seu papel como inspiração e sua dificuldade em assumir a liderança, justamente pelo que ocorreu com o amado, é justificável e legítima.

Outros destaques

A abertura (que lembrou um pouco Watchmen) é muito boa, embora a mão de Snyder, como sempre, pese um pouco no excesso de câmera lenta.

A batalha em Temyscira valoriza as amazonas de forma bem executada, deixando a expectativa que elas ganham destaque no segundo filme da Mulher-Maravilha. A cena no museu com a heroína, logo no começo, também foi bem legal.

A luta entre Superman e os outros heróis é muito boa. Ainda que a polícia demore muito para aparecer (um carro não conta), mas a cena na fazenda deixa a desejar (seu amado voltou dos mortos e você age como se ele só tivesse ido viajar. Sério Lois?). Aliás, me incomodou um pouco o arco da Lois. O que se esperava da personagem é que ela fosse forte e se agarrasse ao trabalho para superar a morte do Superman e não ser a coitada que não consegue viver sem o companheiro, o que não desmereceria o amor do casal, apenas mostraria o quanto ela é uma mulher forte e incapaz de assumir o papel de vítima. Ah, e a piada “Que cheiro bom. – Por quê? Antes não era?”, foi totalmente fora de contexto e desnecessária.

Cena pós-crédito 1: Fan service total. Mas muito boa, necessária, eu diria, para aproximar ainda mais os personagens de suas versões nas HQs. Só um detalhe: o Superman deveria ir correndo, senão é trapaça. 😊

Cena pós-credito 2: Legal ver o Exterminador e a ideia de uma Legião do Mal. A empolgação acaba, no entanto, ao lembrar do péssimo Lex Luthor de Jesse Eisenberg. Que assim como o Superman, o personagem receba um redirecionamento, senão pode colocar tudo a perder na eventual sequência.