Mulher-Maravilha é o primeiro blockbuster baseado em quadrinhos a trazer uma heroína como protagonista, desde que Robert Downey Jr. se tornou o Homem-de-Ferro definitivo, no filme homônimo de 2008 (e estou ignorando os filmes dos X-Men por serem com equipes e não personagens solo), e a melhor constatação que se poderia ter depois de assisti-lo é que a espera valeu a pena. Mulher-Maravilha não é apenas o melhor filme da DC Comics até aqui, mas também é um dos melhores filmes baseados em quadrinhos a chegar aos cinemas.

Extremamente bem dirigido por Patty Jenkins (e vou adorar ver outros trabalhos da diretora), com uma história coesa e que não falha no que se propõe, seja no desenvolvimento da heroína, nas cenas de humor, no encantamento de Diana ao conhecer o mundo dos homens e sua indignação por nem sempre poder fazer algo para torná-lo melhor, tudo funciona muito bem.

Desde o início, o filme deixa claro que essa é a história de Diana de Themyscira e, de forma bastante competente, apresenta uma personagem forte, motivada e determinada a cumprir sua missão. Gal Gadot, que fez muitas sobrancelhas levantarem quando foi escolhida para o papel (a minha, inclusive), já havia mostrado a que veio no mediano Batman VS Superman, no qual foi um dos destaques positivos, e agora não deixa dúvidas que tem tudo para estar para a Amazona assim como Hugh Jackman está para Wolverine (e apontamentos sobre ela “ser muito magra” em nada interferem na imponência que ela traz à personagem). A diretora soube dosar muito bem a apresentação da Mulher-Maravilha, ciente de que, quando ela finalmente entrasse em ação, teria de ser especial. E foi. Quando Diana sobe a escada da trincheira em que se encontra, deixando para trás o “roupão” que vestia e finalmente entrando em combate, foi de arrepiar. Foi épico, como tinha de ser para uma personagem que carrega tanta importância. E a música tema já deve (na minha opinião) figurar dentre os clássicos do cinema.

No entanto, antes de mostrar suas habilidades em combate, acompanhamos Diana passando por constatações que, se hoje nos parecem absurdas, até não muito tempo atrás eram normais e é com bastante satisfação que concordamos com ela, seja quando questiona o objetivo de uma roupa em “segurar a barriga”, ou penetra em uma reunião onde só homens podem permanecer. Aliás, essa constatação já havia sido muito bem destacada antes, quando Steve Trevor diz que precisa entregar o livro de anotações da Dra. Veneno para “os homens que podem fazer alguma coisa” e ela responde “Esse homem sou eu”. E nesse meio tempo o filme ainda amplia as discussões (“Eu amo atuar, mas nasci com a cor errada. Cada um tem a sua luta, como você, Diana”); aponta os horrores da guerra; e a frustação da heroína ao querer ajudar a todos, mesmo sabendo que é impossível.

Steve Trevor (interpretado pelo sempre competente e carismático Chris Pine) co-protagoniza o filme sem, graças à ótima direção, jamais almejar roubar a atenção ou elevar-se acima da personagem principal e a afeição que surge entre os dois é razoavelmente bem desenvolvida, de forma honesta.

Mas então, quer dizer que o filme é perfeito? Não, ele tem seus defeitos, que não atrapalham a diversão e o desenvolvimento da trama. Por exemplo, é impossível não notar a mão pesada no estilo Zack Snyder (produtor e um dos responsáveis pela história), com excessos de câmeras lentas, algumas cenas de batalha que não convencem ou destoam do restante do filme. A tentativa de ter uma imagem épica a cada quadro da projeção muitas vezes acaba sendo cansativa e diminuindo a imersão.

Por fim, Mulher-Maravilha é um ótimo filme, uma adaptação de quadrinhos digna e que respeita muito sua personagem, deixando claro o tempo todo que, mesmo um espião charmoso e heroico, que se sacrifica para salvar o mundo, será, assim como qualquer outro homem, menor perto da grandeza de Diana de Themyscira.