Não sou um cara politicamente correto. Faço piadas maldosas, como carne vermelha, me entrego, com certa ressalva, à procrastinação, nem sempre olho pros dois lados antes de atravessar uma rua, deixo verdura sobrar no prato e não trato os animais como se fossem deuses entre homens. Mas não sou tão mal assim, não jogo lixo no chão, não faço ‘gato’ na TV a cabo e dou a vez pros mais velhos. E admiro quem tenta fazer do mundo um lugar melhor, de verdade. Mas tem uma coisa me incomodando com tudo isso, já há um bom tempo. Mas vamos historiar, pra facilitar a compreensão:

Há pouco mais de um ano, se não estou enganado no meu calendário, a mídia convenceu todo mundo de que a sacola plástica que usávamos nos mercados era um mal para o mundo e deveria ser abolida, pois demora muito tempo para se desfazer na natureza, polui e mata os peixes, os bichos, os insetos, as plantas e os pokemóns. Acredito eu que seja verdade, taí a mídia, os especialistas, os jornais e o Facebook, que não me deixam mentir. Então, foi uma campanha admirável e algumas cidades (a minha, inclusive) proibiram as famigeradas sacolas nos mercados, colocando-os sob a obrigatoriedade de oferecer uma alternativa para carregarmos nossas compras, como caixas de papelão, por exemplo. Caixas, ressalto, que são consideravelmente raras de se encontrar, muitas vezes quase tive de disputar a tapa, e aquela velhinha que ficou com a última era bem durona. A outra opção, que nunca falta, pelo contrário, abunda, são as sacolas de plástico biodegradável. “Puxa, então quer dizer que os mercados estão mesmo preocupados com o ambiente!”, você afirmaria, feliz por uma parte do seu rico dinheirinho gasto nas compras ser empregado numa atitude louvável. Mas pera lá… as novas sacolas não são gratuitas, como as antigas, elas estão à venda! Acho que, tirando esse pobre escriba acusado de muquirana, ninguém chiou com isso, mas não consigo deixar de ver a lógica distorcida por trás dessa história. Vamos analisar: o mercado nos dava sacolas plásticas para carregarmos as compras. A prefeitura proibiu o uso, então o mercado passou a vender sacolas biodegradáveis pelo “preço de custo” (até parece) para o consumidor. Não sou dos melhores em matemática (eu fiz jornalismo, afinal), mas na minha conta, chego ao seguinte resultado: o mercado gastava X com sacolas durante o mês. Hoje, ele ganha Y com sacolas durante o mês. Simples, não?

Daí vão dizer que sou egoísta, afinal, é um preço pequeno (cerca de 19 centavos) a se pagar pelo bem do ambiente, pela preservação do nosso planeta e da natureza. Concordo. É um preço pequeno mesmo. Mas porque eu que tenho de pagar e não os mercados? Sei não. Meu sentido de aranha paranoico está tilintando e me dizendo que, no fundo, a preocupação dos mercados era extinguir o gasto que tinham com sacolas plásticas. Se puderem usar uma desculpa, como o politicamente correto e a preservação, tanto melhor. E não é que deu certo?

De qualquer forma, eu levo minha própria sacola de casa (essa sim!) e, no caso de esquecê-la, carrego na caixa de papelão (quando há alguma milagrosamente disponível), carrego nos braços, nos bolsos, peço ajuda, faço duas viagens. Mas não compro a bendita da sacola! É questão de honra!