Sessão Nostalgia

 

As pessoas são nostálgicas. E quanto mais velhas, mais evidente isso fica, já que temos o hábito de romantizar o passado como se fosse uma era dourada e magnífica, cheia de magia, encanto e onde a vida era mais simples e bela. Percebo que, atualmente, os grandes nostálgicos são as gerações 80 e 90, principalmente. Basta dar uma conferida pelo Facebook ou por alguns sites por aí que isso fica evidente. Prestei atenção em alguns e, embora eu também tenha minha parcela nostálgica e guarde lembranças muito boas do passado, acho que vale a pena refrescar um pouco a memória para alguns pontos que não eram tão mágicos assim, a saber:

A imagem de uma fita K7 acompanhada de uma caneta e, invariavelmente, a frase “Se você sabe o que é isso, parabéns, você foi feliz”. O cara que inventou isso, sem dúvida, tem a memória muito fraca e dizer que era divertido rebobinar fita com caneta é, parafraseando o Datena, “uma brincadeira!”. Hoje até parece legal ver como tínhamos a criatividade para operar um equipamento tão simples, seja para economizar pilha nos walkman (minha irmã tinha um amarelo, clássico), ou enquanto ouvíamos outra fita, mas a verdade é que na época não era nem um pouco divertido. Sem contar que se você fizesse um movimento brusco, a fita (ou o cd, nos discman mais “modernos”) pulava! K7 é o Kcete; era digital, seja bem-vinda! Ah, e não era só o K7, tinha também as famigeradas fitas em VHS, que não dava pra rebobinar na mão, e se você devolvesse sem rebobinar ainda pagava multa na locadora.

Outra frase que me intrigou foi a que “não tinha celular e pra minha mãe me chamar, bastava gritar que eu ouvia da rua”. Concordo que hoje é muito menos comum brincar na rua despreocupadamente como era antes, mas isso nada tem a ver com o celular. Pelo contrário, com a possibilidade de vigiar os filhos à distância, ganhar liberdade para visitar lugares longínquos e onde nenhum homem jamais foi (tá, nem tanto) se tornou bem mais fácil. Ir numa jornada noturna de bicicleta sem lenço e nem documento com os amigos desmiolados para Pirapora do Bom Jesus? Nem pensar! Mas ah se eu tivesse um celular… dava pra deixar o Skype online e ir sendo vigiado em tempo real. Atrasar na saída da escola de improviso? Loucura, era matar a mãe do coração! Mas ah se eu tivesse um celular pra avisar.

Também vi dia desses alguém exaltando um disquete. Caramba, como alguém pode sentir falta de um troço imprestável desses? Lembro que quando eu fazia trabalhos na escola, tinha de salvar em pelos menos dois ou três deles pra garantir, porque era certo que um (ou todos) ia dar pau na hora de abrir. Fora a capacidade, qualquer coisa que você fosse carregar que não fosse arquivo de texto, tinha de ser dividido (“argeado”, se bem me lembro) em vários disquetes. E ai de tu se desse pau em algum deles, não adiantava chorar o leite derramado, só restava lamentar. Tenho trauma até hoje da mensagem “disco não formatado. Deseja formatar agora?”. Só quem viveu sabe o que é pânico. E hoje você carrega sua vida num pendrive de cinco centímetros, ou leva quase tudo no celular, que só não tem o mesmo tamanho porque senão nossa vista iria reclamar, já que nossos capacidades físicas não evoluíram no mesmo ritmo da tecnologia.

Mas é assim mesmo que as coisas funcionam. No futuro, quando os carros voarem e bastar um chip microscópico embutido na orelha para falarmos uns com os outros, os jovens de hoje vão sentir falta dos celulares, dos pendrives, e de toda a parafernália de agora. E nós, que sentimos falta de Kichute, Ki-suco, groselha, disquete, pogobol, walkman, discman, K7 e VHS, finalmente vamos ter a companhia deles pra dizer que “a gente sim era feliz”.

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