Por Raul Tabajara

“Você que é ilustrador, tem um estilo? Não? Então você não é um ilustrador de verdade!”

Quantas vezes eu já ouvi isso? Muitas. E o que mais me deixa chateado é quando ouço que o importante é ter seu próprio estilo. Quem disse isso?

Vou gerar polêmica, apenas citando o ilustrador Ziraldo quando indagado sobre estilo. Disse ele:  “Estilo é não saber fazer melhor”

Lógico que ele disse isso num contexto onde era indagado sobre o próprio estilo, e isso foi uma auto-crítica.

Mas uma coisa que eu sempre digo para todos os meus alunos é:
Não busque um estilo. Ele busca você. Apenas desenhe sem parar.

Trocando em miúdos, e vendo, talvez, o copo “um pouco vazio”:
Quando se tem um ritmo muito grande de trabalho você já deixa pré-definido:

a) uma forma de começar;

b)uma forma de fazer sombra; e

c) uma forma de terminar logo aquele “raio” de ilustração.

A repetição dessa sua fórmula pessoal de início, meio e fim, acaba gerando um certo toque só seu.

Eu nunca corri atrás de estilo, até uma vez que meu aluno viu uma obra minha na internet e me mostrou (um desenho antigo de uma sereia que nunca terminei).

Ele disse “isso é seu, não é?”. E eu disse “É, de uns dois anos”. O desenho estava sem crédito em um site sobre mitologia e ele disse “Seus desenhos sempre me parecem fotos de esculturas em massinha, por isso achei que fosse seu”

Eu fiquei extremamente ofendido com aquilo.
Onde já se viu: o meu “super desenho realista” (que era o que eu achava dele) ser comparado a esculturas de massinha! Mas que afronta!

Mas era fato, e aos poucos fui me acostumando com a idéia de que meus desenhos “se parecem com massinha” – por mais que eu tentasse fazer outra coisa.

Hoje, quando me perguntam, eu digo exatamente isso: “meu estilo é quase uma foto de esculturas em massinha”. E digo tranquilo… porque é o meu estilo… eu faço luz e sombra como se as coisas fossem brinquedos (eu goste disso, ou não).

Indo um pouco além:

Nosso padrão de beleza somos nós mesmos. E nós nos olhamos no espelho sempre. É natural que nossos desenhos fiquem LITERALMENTE com a nossa cara. E isso é um dos fatores psicológicos e inconscientes que tem grande peso nas proporções de nossa obra.

Por isso eu não acredito (e sou contra) aqueles que dizem que um ilustrador deve buscar seu estilo. Se você for ilustrador ou está se formando para ser, não entre em campanha em busca de seu estilo.

Busque seu tema favorito; busque a categoria de trabalho favorita; busque pintar com as cores que mais gosta. Até copie seus artistas favoritos, mas não faça nada disso buscando o seu traço.

O estilo (ou seja, o tipo de traço e tipo de proporção que sairá o desenho), surgirá naturalmente, de acordo com as suas capacidades artísticas e seus conceitos inconscientes de beleza.

E aí eu fecho com a frase do Ziraldo novamente, mas com uma segunda interpretação (com o copo mais cheio):

“Estilo é não saber fazer melhor”.

No final das contas, estilo surge da sua capacidade, não de uma busca.

E veja, quando digo “surge de sua capacidade” não significa que há estilos melhores ou piores. Apenas é aquilo que o seu cérebro, e suas condições de trabalho o levam a realizar… porque uma vez voltando a estudar do ZERO, seu estilo muda (ou evolui).

Então, bora fazer fogueira: Vamos soltar faíscas do grafite de tanto desenhar.

Desenhe aquilo que você gosta, e o estilo buscará você.

Via: blog do Raul Tabajara